A esperança na verdade

A esperança que não se realiza deixa o coração doente,
mas uma que se realiza é (como) uma árvore de vida.

– – Provérbios 13:12 – –

Durante o tempo que Nina esteva conosco fizemos o possível para descobrir a verdade. “O que Nina realmente tem? Quão severo é a síndrome de Patau? O que o médico não está nos dizendo? O que os artigos científicos publicados podem nos dizer? Como eles nos ajudam? Existem médicos bem preparados para nos ajudar com o parto dela? Algum pediatra profundamente ciente de uma situação como essa?” A lista de perguntas era grande.

As questões não eram somente horizontais, ou seja, de um pai para um médico, de uma mãe para pesquisadores, de avós para amigos(as). As dúvidas também eram verticais, ou seja, como tudo isso se relacionava com Deus. Morte, vida, estado eterno, paraíso, inferno, Criador, deficiência, pecado, etc. Qual é a verdade? Como descobri-la? Karen, eu e todos próximos de nós buscávamos por respostas.

Hoje, ao pensar no provérbio acima (13:12), pensei em pessoas que desconhecem a Verdade – sim, Verdade com a primeira letra maiúscula. Somente consegui pensar em duas opções para tais pessoas: (1) ou elas se frustram agora, ou (2) elas se frustram depois. Continuar a ler

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O que NÃO dizer para alguém em luto?

Como conselheiro, as duas perguntas que eu mais recebo são:

  1. “O que eu devo DIZER para tal pessoa?”
  2. “O que eu devo FAZER para tal pessoa?”

Enquanto Nina ainda estava no útero, com o intuito de nos providenciarem consolo, recebemos muitos comentários e palavras desconcertantes. “Poderia ser pior, né?” “Você me parece bem.” “Deus está no controle de tudo, não tema.”

Dizer a verdade é essencial [clique aqui para um post sobre isso], mas a verdade sem amor não é completamente amor. Dizer a verdade não é suficiente para consolar alguém que está no processo de luto (um conjunto complexo de emoções). Aquele que deseja consolar deve se cuidar para apresentar o amor de acordo com a cultura e personalidade do indivíduo a ser consolado. Por exemplo, abraçar um brasileiro cuja mãe faleceu expressa algo diferente do que abraçar alguém da cultura oriental, onde abraços são mais raros e a noção de espaço físico pessoal é distinto. O significado das flores, a cor da roupa e a forma como se comportar num funeral são detalhes que podem ter diferentes significados, até mesmo dentro de uma mesma nação. O sotaque da população nortista e sulista não é a única diferença entre eles. Conhecer a pessoa a quem pretendemos ajudar é um desafio de amor e um tesouro de informação.

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A verdade é fundamental para o verdadeiro consolo

Não preciso usar muitas palavras para convencer as pessoas a respeito da dor existente na triste experiência de perder um filho. E com tamanha dor somos tentados a deixar de lado a razão e a fé – a porta do abrigo parece estar trancada e a única aparente opção é assistir e pensar, com algum cuidado, na tempestade do lado de fora. Nesta tempestade (sofrimento intenso), raios e trovões estão presentes: “Por que isso aconteceu comigo?” “Por que Deus permitiu isso?” “Será que tenho alguma culpa?” Durante a minha tempestade, a morte de minha filha Nina, um destes raios foi a pergunta: “onde ela está agora?”

Ainda que eu não pretenda tornar essa mensagem um artigo teológico, eu preciso avisá-los: saber a verdade foi fundamental para eu entrar no abrigo.

Foi em 1999 quando o dono da chave deste abrigo, percebendo que eu estava perdido, se introduziu e me ofereceu um presente irrecusável. Após receber o imerecido presente, entramos no abrigo, o qual me trouxe uma paz sem igual. Falar tanto do abrigo quanto dessa paz soa como loucura para alguns. Naquele dia, quando nos conhecemos, ele disse que eu tinha livre acesso ao abrigo, mas os estrondos da tempestade de 2012 me deixaram confuso e eu me esqueci do livre acesso. Eu até havia tentado entrar, mas eu não tinha girado completamente a maçaneta da porta de entrada.

Enquanto isso, do lado de fora e sob a tempestade, eu busquei soluções baseadas no meu conhecimento. Eu tinha muitas respostas para diversas perguntas, mas meu conhecimento não era suficiente para lidar com as perguntas daquela tempestade – “onde minha filha está agora?” Tudo o que eu sabia ser verdade[1] eu havia aprendido por intermédio do dono da chave do abrigo.

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Supostas palavras de piedade e consolo

É verdade, sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Romanos 8:28). Apesar de divina e verdadeira, a sentença, cuja essência transborda de esperança, consolo e alegria, pode ser bastante agressiva (ofensiva) se usada negligentemente, mais especificamente, se usada sem conhecer o coração humano quando diante do sofrimento.

Por exemplo, quando tínhamos o diagnóstico de que Nina tinha síndrome de Patau, também já tínhamos nossas passagens de avião compradas para Campinas-SP. Na época morávamos em Cabedelo-PB e, apesar de gostarmos muito de lá, a mudança foi tanto uma sugestão médica, quanto uma opção pessoal. Médica, porque os hospitais de João Pessoa-PB, segundo alguns profissionais da área de saúde nos disseram, não estavam preparados para caso precisássemos de uma intervenção cardíaca pós-parto. Pessoal, porque queríamos estar ao lado de nossos familiares, amigos próximos e igreja (enviadora).

Uma semana antes da nossa viagem, ouvimos a mensagem dominical da nossa igreja de Campinas online e ao vivo. Ao final do culto, nosso sábio pastor, sem saber que estávamos assistindo, orientou a igreja: “Zambelli e Karen estão vindo para cá. É muito provável que muitos de vocês queiram, agora, consolá-los. Deixe-me dizer, vocês não precisam falar nada! Vocês não têm que falar. É provável que você não saiba o que falar e, quando falar, não saia da forma como você gostaria que saísse. Assim, mesmo que você não consiga se controlar e vai falar, diga ‘estou orando por vocês.'” (As palavras não eram exatamente estas, mas a essência é fiel ao que relatei aqui.)

Quando chegamos em Campinas e fomos ao culto, ouvimos de dezenas de amigos e irmãos na fé: “estou orando por você(s).” Foi consolador saber disso. De fato, eu nunca estive numa posição tão paradoxal entre alegria, tristeza, paz e luta em toda minha vida. Costumo dizer: “ainda que eu não saiba mensurar em números, foram as orações das centenas de pessoas que nos mantiveram de pé.” [1]

Porém, apesar do sábio conselho pastoral, alguns arriscavam frases aparentemente piedosas para nos consolar, tais como:

  • “Deus é soberano e sabe o que faz;”
  • “No final tudo dará certo;”
  • “Ainda bem que você são fortes;”

Entre as frases, alguns versículos eram citados, mas nenhum deles mais que a primeira parte de Romanos 8:28 (na versão Revista e Atualizada): Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

David Powlison, no artigo I’ll never get over it [Eu nunca superarei isso] (JBC 28:1 [2014]: 8-27), escreveu:

“Quando você está no início do processo de enfrentar a dor, é um insulto alguém lhe dizer: Deus vai fazer algo bom através disso.”

Ainda que insulto não fosse bem a palavra que descrevia meu sentimento, eu me sentia como se as pessoas estivessem depreciando o meu sofrimento. Paul Tripp e Timothy Lane, sobre isso escreveram:

As Escrituras nos lembra que nunca devemos considerar o sofrimento de forma leve, porque Deus não o considera assim. A mensagem central da Bíblia é que Deus não passou por cima do sofrimento, mas tomou medidas custosas para terminar com ele. Ele nos enviou um Redentor, Seu filho Jesus Cristo, que sofreu ao nosso lado para nos dar esperança, propósito e perseverança em meio às lutas da vida. (How People Change, 2006).

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A mesma verdade

Se eu substituísse o nome de Sam por Nina na frase abaixo, ela ainda seria verdadeira.

Por “jt

The pain is not gone, and at times Sam’s death doesn’t feel real. But the one thing I know is real is my constant comfort and hope.

(Tradução) A dor não se foi, e por vezes a morte de Sam não parece real. Mas uma coisa eu sei: é real meu constante conforto e esperança.

Fonte: A Story of Suffering: My Wife’s Thoughts a Year Later (clique para ver o artigo/a história completa)