Juntos por breves vidas

O vídeo abaixo é da organização Together for Short Lives. Seguramente, muitos leitores de Nina Minha Filha se sentirão familiarizados com essa belíssima animação.

Como o vídeo ainda não tem legenda, coloquei a tradução abaixo dele.

Well, it was a real moment, I suppose…
Bem, era um momento real, acredito eu… 

That day I came home and told him, “We’re having a baby!”
Aquele dia eu cheguei em casa e disse a ele: “Vamos ter um bebê!” 

It’s one of those special memories, isn’t it?
Essa é uma daquelas memórias especiais, não é?

And your mind starts filling up with thoughts,
E sua mente começa a se encher de pensamentos, 

really happy thoughts,
pensamentos bem felizes. 

imagining what might come next,
imaginando o que estaria por vir, 

like their first birthday, their graduation, marriage,
como o primeiro aniversário, a graduação, o casamento, 

and maybe even children of their own.
e talvez até mesmo seus próprias crianças. 

And I remember the moment it all changed…
E eu me lembro o momento quando tudo isso mudou… 

listening to the doctor,
escutando o doutor, 

all of that information.
toda aquela informação. 

But only one bit of it really standing out: life-limiting.
Mas só um trecho da conversa se destacava: vida limitada [incompatibilidade com a vida

My child was going to die.
Minha criança ia morrer. 

And it all kind of stopped.
Parece que tudo parou. 

We felt lost, and out of reach. And you can feel really alone.
Nós nos sentimos perdidos, fora de alcance. E você consegue se sentir bem sozinho.

But then someone was there for me,
Mas tinha alguém ali para me ajudar, 

just a helping hand, or a kind word, or even a smile.
uma mão amiga, ou palavra gentil, ou mesmo um sorriso. 

It sort of grounds you back down to earth, in a way.
Meio que lhe traz de volta à Terra, de certa forma. 

And we felt, “There are moments to savor.”
E nós sentimos, “Há momentos para saborear.” 

And the moment you realize that there are people who can give you the advice you need is so special.
E o momento que você percebe que há pessoas que podem lhe dar o conselho que você precisa é bem especial. 

It has helped us to make all the time count for our family, to have a life– no matter how short, and to be together.
Isso nos ajudou a tornar todo este tempo valioso para a nossa família, em ter uma vida; independente se curta e se para ficar juntos.

Supostas palavras de piedade e consolo

É verdade, sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Romanos 8:28). Apesar de divina e verdadeira, a sentença, cuja essência transborda de esperança, consolo e alegria, pode ser bastante agressiva (ofensiva) se usada negligentemente, mais especificamente, se usada sem conhecer o coração humano quando diante do sofrimento.

Por exemplo, quando tínhamos o diagnóstico de que Nina tinha síndrome de Patau, também já tínhamos nossas passagens de avião compradas para Campinas-SP. Na época morávamos em Cabedelo-PB e, apesar de gostarmos muito de lá, a mudança foi tanto uma sugestão médica, quanto uma opção pessoal. Médica, porque os hospitais de João Pessoa-PB, segundo alguns profissionais da área de saúde nos disseram, não estavam preparados para caso precisássemos de uma intervenção cardíaca pós-parto. Pessoal, porque queríamos estar ao lado de nossos familiares, amigos próximos e igreja (enviadora).

Uma semana antes da nossa viagem, ouvimos a mensagem dominical da nossa igreja de Campinas online e ao vivo. Ao final do culto, nosso sábio pastor, sem saber que estávamos assistindo, orientou a igreja: “Zambelli e Karen estão vindo para cá. É muito provável que muitos de vocês queiram, agora, consolá-los. Deixe-me dizer, vocês não precisam falar nada! Vocês não têm que falar. É provável que você não saiba o que falar e, quando falar, não saia da forma como você gostaria que saísse. Assim, mesmo que você não consiga se controlar e vai falar, diga ‘estou orando por vocês.'” (As palavras não eram exatamente estas, mas a essência é fiel ao que relatei aqui.)

Quando chegamos em Campinas e fomos ao culto, ouvimos de dezenas de amigos e irmãos na fé: “estou orando por você(s).” Foi consolador saber disso. De fato, eu nunca estive numa posição tão paradoxal entre alegria, tristeza, paz e luta em toda minha vida. Costumo dizer: “ainda que eu não saiba mensurar em números, foram as orações das centenas de pessoas que nos mantiveram de pé.” [1]

Porém, apesar do sábio conselho pastoral, alguns arriscavam frases aparentemente piedosas para nos consolar, tais como:

  • “Deus é soberano e sabe o que faz;”
  • “No final tudo dará certo;”
  • “Ainda bem que você são fortes;”

Entre as frases, alguns versículos eram citados, mas nenhum deles mais que a primeira parte de Romanos 8:28 (na versão Revista e Atualizada): Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

David Powlison, no artigo I’ll never get over it [Eu nunca superarei isso] (JBC 28:1 [2014]: 8-27), escreveu:

“Quando você está no início do processo de enfrentar a dor, é um insulto alguém lhe dizer: Deus vai fazer algo bom através disso.”

Ainda que insulto não fosse bem a palavra que descrevia meu sentimento, eu me sentia como se as pessoas estivessem depreciando o meu sofrimento. Paul Tripp e Timothy Lane, sobre isso escreveram:

As Escrituras nos lembra que nunca devemos considerar o sofrimento de forma leve, porque Deus não o considera assim. A mensagem central da Bíblia é que Deus não passou por cima do sofrimento, mas tomou medidas custosas para terminar com ele. Ele nos enviou um Redentor, Seu filho Jesus Cristo, que sofreu ao nosso lado para nos dar esperança, propósito e perseverança em meio às lutas da vida. (How People Change, 2006).

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